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Dona Rosa está chegando a sua casa quando vê Das Dores. Sua vizinha está na janela com uma cara que Rosa já conhece. Na varanda da casa de Rosa, no canto encima de um pequeno banco, está seu orgulho, a maior samambaia chorona do bairro. Hoje a samambaia está ainda maior, acrescida de uns cachos de cabelos castanhos que não param de mexer. Rosa vê e fala:
- Se alguma coisa acontecer a minha samambaia, eu corto seus cabelos e planto no lugar da samambaia. 
A samambaia para.
- Quer uns biscoitos?
Silêncio. 
- Quer um suco de limão? 
Mais silêncio. 
- Minha casa não é buraco pra tatu ficar se escondendo. Ou entra ou deixa minha samambaia em paz. 

O que parece uma pergunta inocente para qualquer um, para alguns pais é a dor do dedo na ferida. Conferir a paternidade dealguém, mais que invasão à privacidade, pode representar o constrangimento de tocar num assunto delicado e o enxerido arrisca-se a ouvir uma resposta malcriada.

Pais adotivos, por exemplo, odeiam essa pergunta. Presenciei muitas queixas e ouvi as mais variadas respostas possíveis para essa simples pergunta nas várias atividades ligadas à adoção em que me envolvi nos últimos anos e no meu círculo de amigos – também pais adotivos. Aliás, eu mesma estive nesse lugar de ver contestada minha maternidade, não só em relação a meu filho adotivo, mas também ao caçula, gerado por mim.