Você quer adotar uma criança síria?

Você quer adotar a criança síria, branca, loura de olhos azuis, com uma história trágica mas que sorri como se tivesse acabado de ganhar um brinquedo novo? Desculpe, essa criança não existe, não é real. Mas temos crianças de muitas cores (a maioria mulatos), de várias idades (nenhum bebê), alguns sorridentes e outras não. Não vieram da Síria. Vieram de todos os bairros da cidade, inclusive dos bairros nobres, onde moravam nas ruas. Não estiveram na guerra, mas todos têm histórias trágicas, ou não estariam disponíveis para adoção, porque no Brasil é assim.


O que queremos dizer é que você precisa separar as crianças das histórias contadas nas redes sociais daquelas que estão nos abrigos.

Primeiro, você sabe o que é preciso para criar uma criança?

A Vara da Infância não vai exigir um salário alto, nem uma casa luxuosa, mas você pode pagar por roupas, comida, remédios, cadernos, livros, lápis, caneta e sapatos? Apenas para começar. Depois vem mais remédios, as roupas ficam pequenas, os sapatos gastos e esqueci do uniforme da escola. Você está pronto para repartir seu orçamento com uma criança?

Há um lugar na sua casa para essa criança? Um quarto? Cama?

Tempo, você tem tempo? Você sabe quanto tempo você vai dedicar a essa criança? Ela vai consumir todo o seu tempo, com pequenos intervalos onde ela está na escola. E você vai precisar visitar a escola algumas vezes. Você não pode sair de manhã para o trabalho e fechar a criança dentro de casa como um cachorro. Você precisa cuidar dela o tempo todo, ou ter alguém que o faça. Creche, marido, esposa, avós, babá, tios, amigos, etc.

Ser pai e mãe não tem fim de semana nem férias.

Parece pouco? Mas não é tudo.

Temos as birras, as brigas com a comida, com o banho, arrumação do quarto, etc. São muitos etcs.

Mas não é tudo ainda.

As crianças da adoção têm histórias anteriores a sua adoção. Mesmos os bebês têm uma história anterior. Não dá para "fazer-de-conta" que nasceu quando entrou em casa. Um dia essas histórias aparecem, como um susto. A criança vai descobrir que ela tem diferenças, as vezes a cor, o tipo do sangue, etc. Isso sem falar das crianças mais velhas, que tem lembranças de uma outra infância, de outra mãe, de uma outra vida. Algumas vidas tiveram bons momentos e maus momentos. Sobre a mãe que sumiu, desapareceu no ar, ela pode ser a vilã, mas geralmente é outra vítima. Você sabe o que fazer nessas horas, quando a criança perguntar por que a outra mãe sumiu, se você pode sumir também?

Você quer adotar uma criança? Existem dezenas esperando. Grandes, sujos, sem saber ler e escrever, sem educação. Eles precisam de alguém que cuide e ensine a lavar as mãos, serem educados e não pegar todos os biscoitos do pacote.

Bebês? Existem, mas são poucos para a longa fila de adotantes.

Você quer adotar a criança síria, branca, loura de olhos azuis, com uma história trágica mas que sorri como se tivesse acabado de ganhar um brinquedo novo?

Desculpe, essa criança não existe, não é real.